Pedro Costa faz enxergar com o seu cinema um mundo paralelo, invisível aos olhos apressados do progresso. O tempo dos seus personagens e o da vida real. Não conceder à superficialidade do cinema é a marca deste cineasta português único. Os imigrantes de Cabo Verde sempre fascinaram o cineasta atento aos seus problemas. Mas o que temos em “Juventude em Marcha” é a emoção da solidariedade, um passeio por barracos condenados a desaparecer, como se junto fossem os seus habitantes.
A comunidade vai aos poucos movendo os favelados para apartamentos modestos, novos e limpos. Seguimos os anseios de Ventura, um pedreiro recém abandonado pela mulher Clotilde, que a procura pelas casas de amigos e a todos confunde com seus próprios filhos. Cada plano do filme é de uma preciosidade impressionante. A luz que vemos está sempre penetrando os cenários com dramaticidade própria, com uma contribuição especial. Como os planos são longos e os diálogos calmos, a fotografia de cada seqüência, de cada enquadramento, também pode ser apreciada e descoberta sem pressa. Por fim, temos ainda uma carta de amor que Ventura recita de memória e de improviso. É uma carta que jamais será escrita, mas que também vamos guardar na memória como um poema de esperança por dias melhores e pelo reencontro do amor distante.
“Por vezes eu tenho medo de construir estes muros”, diz o pedreiro à sua amada,
na carta imaginária. “Eu com a pá e o cimento, e você com o teu silêncio.” O
silêncio de muitos de nós deve estar sugerindo Pedro
Costa, o silêncio aos tantos dramas sociais que o drama da imigração provoca
pelo mundo.
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