15 / 8 / 2003
Tenho o prazer de conhecer um personagem fascinante, o jornalista Novaes Teixeira, respeitável figura de resistência, do jeito que francês adora e glamourisa exilados. Ele era fugido do salazarismo, a versão fascista portuguesa, amargando seus últimos anos de vida na França, de onde também atuava como correspondente do 'Estado de São Paulo', sempre com artigos deliciosos. O ano é 1971 e o cenário, a provinciana Cannes que estava mais para a economia de subsistência e familiar da Ligúria italiana do que para a mesquinharia e mais-valia atual, do jeito yuppie parisiense.
É o meu primeiro Festival de Cannes e caio na simpatia do velho Novaes, que me decifra códigos da informalidade no velho mundo novo. Ele é o melhor amigo de Luis Buñuel, o totem dos totens, surrealismo em pessoa, o cineasta que mais admirava, o impiedoso algoz das burguesias no vasto e lento panorama pós-68. Pergunto a Novaes se ele pode me apresentar a Buñuel. Penso em uma entrevista para o extinto Diário de São Paulo, dos Diários Associados.
"O melhor que você tem a fazer é ir ao encontro de don Luis", era assim que o amável Novaes tratava seu amigo aragonês, "e esperá-lo no saguão do hotel."
Como recomendação disse ainda para chegar antes das seis (da manhã), que era a hora que Buñuel descia para a sua caminhada diária pela Croisette (a avenida que contorna toda a baia de Cannes), e tomar cuidado com o seu mal humor. "E pode dizer que você é meu amigo que ele deixa de latir", brincou.
Não perdi um dia. Lá estava eu na manhã seguinte, madrugando no majestoso hotel Majestic, naquele tempo numa ponta da orla distante do agito da sede do festival e em frente ao velho porto dos pescadores de Cannes. Não acreditei ao ver Buñuel vindo em minha direção sem nenhuma intenção de me notar. O seu mal humor era assustador.
Interpelei o mito tremendo e denunciando meu medo e amadorismo com uma única frase em perfeito espanhol: "Soy amigo de Novaes Teixeira y queria..."
Denunciado por minha câmera fotográfica já armada, Buñuel desviou-se de mim sem interromper o vigoroso ritmo que daria a toda a caminhada com uma curta arrematada: "Nada de entrevistas!" e me deixou perplexo olhando para trás.
Já tinha uma resposta, mal podia acreditar. Aquilo já devia ser em consideração ao seu amigo. Fiz um esforço extraordinário para me por em marcha, quase correndo para alcançá-lo. Buñuel andava e eu corria tropeçando na minha vergonha e falta de uma nova iniciativa para arriscar um novo diálogo.
"Sou do Brasil", disse, "admiro muito seu trabalho, mas a censura proíbe e mutila as suas películas..."
Buñuel me olha desconfiado e resmunga com sua cavernosa voz de taquara rachada: "La censura está por toda parte..."
Meu coração dispara, acho que a voz não voltará a sair. Estou passeando com Buñuel, o diretor do filme mais atrevido que até então conhecia - "O Anjo Exterminador". Já travamos dois diálogos, era como se fôssemos velhos amigos. Buñuel me surpreende olhando para o meu rosto e agora ele toma a iniciativa do diálogo, inacreditável:
"De onde conoces a Novaes...?"
"Escreve para un periódico de São Paulo. Mas o conheci pessoalmente aqui, em Cannes..."
"No me gusta Cannes", resmunga. "Todos os anos me convidam, mas logo me dou conta de que é uma perda de tempo... Esta gente gosta de jantar muito tarde, quando eu já estou indo dormir." Já entrei no ritmo da sua caminhada e percebo agora que ele manca um pouco na perna esquerda. E parece ouvir mal. Também me dou conta de que tenho que repetir o que digo várias vezes, mas não tenho tempo para saber se é por causa do seu mal ouvido, o meu espanhol, meu nervosismo ou se ainda está irritado com a minha inesperada companhia.
Mais uma pergunta do amável mestre me confunde com a sua voz rouca e de eterno irritado: "Que viste de bueno por estos dias?"
Tinha na ponta da língua o título do filme que me marcaria por seguidos anos a minha vida: "W.R. - Os Mistérios do Organismo", de Dusan Makavejev", disse.
"Esto es el problema", continuou. "Não se esqueça que tenho 71 anos e não posso fazer tudo que quero. Vou deitar todos os dias às dez da noite e acordo sempre às cinco da manhã... Los Mistérios del Organismo eu o perdi ontem, mas asisto de três a quatro películas todos os dias. Mas está nas minhas anotações de não perder hoje este Los Mistérios del Organismo..."
Já falávamos como velhos amigos carentes. E ele tomando as iniciativas. Mais uma pergunta - "o que achei do filme espanhol na competição (Goya - Historia de una Soledad, de Nino Quevedo), quer saber Buñuel.
Confesso que só vi dez primeiros minutos, que saí atrás de outro melhor - "Panic in Neddle Park", de Jerry Schatzberg, um raro filme 'hard' do sistema de Hollywood sobre drogas injetáveis, depois proibido no Brasil e até hoje inédito. E devolvo a pergunta: "O senhor não assistiu? Vi uma foto sua com o Francisco Rabal (ator do filme)..."
Buñuel pega a deixa: "Não, foi uma foto ocasional, não foi na sessão de gala, que eu nem trago smoking a Cannes, que é para evitar essas sessões que a minha idade não permite mais... Se você reparar na foto verá que eu não estou de smoking, estou só de sobretudo. Eu não fui ver o filme, não gosto das coisas assim... Depois, eu não estou aqui para promover movimentos nacionalistas (Buñuel não perde a oportunidade para descarregar o seu fel anti-franquista). Cansei dessas coisas faz muito tempo. 'Goya' é um filme muito ruim. Um cartão postal para promover o turismo espanhol, romantismo medíocre, palhaçada, entende? O pior é deturparar a vida de um grande artista. Isso me desagrada ainda mais..."
Já consigo falar mais relaxado com ele: "O senhor sempre diz depois de um filme que não voltará mais a filmar. Disse isso depois de 'Bela da Tarde', 'Simão do Deserto', e 'Via Láctea'. Mas não voltou a dizer depois de 'Tristana'... Vem aí mais um filme?"
"Não!", reage assustado. "Essas coisas costumam dar muito trabalho. O trabalho não está em filmar, pois os meus colaboradores são pessoas sempre certas para lugares certos. Por exemplo, todo mundo diz que a Catherine Deneuve é uma má atriz, que é difícil trabalhar com ela, que é uma mulher insuportável, exigente, cheia de caprichos... Pode ser que ela seja tudo isso ao mesmo tempo, mas, na verdade, comigo ela cumpriu com tudo que exigi dela. E acho que ela se saiu novamente muito bem em 'Tristana'..." (um ano depois Buñuel surpreenderia com outro grande marco da sua filmografia: "O Charme Discreto da Burguesia", que venceria o Oscar de melhor filme estrangeiro e, claro, sofreria retaliações na censura espanhola e... brasileira).
"Mas ouvi o seu produtor (Serge Silberman) dizendo estar contratando Delphine Seyrig para o seu próximo filme..."
"Não é bem assim... Filmar é muito fácil. O que dá trabalho é preparar os diálogos, pesquisar bastante, estudar as coisas, o movimento dos atores... Gosto muito de fazer isso, mas você há de convir que eu tenho os meus longos 71 anos e as coisas não são mais assim. Os produtores podem querer um filme depois do outro, mas as coisas não são mais assim..."
Quando me dou conta, já estamos fazendo o percurso de volta na Croisette. Não estou querendo abusar da sua generosidade. Estamos falando de amenidades, mas sinto que a cada pergunta mais objetiva ele fica irritado. Não comigo, mas historicamente, ligando o seu raciocínio anarco-surrealista com a ordem mundial. Quero poupá-lo para saborear alguns bons passos do passeio, para saborear bons momentos de silêncio.
É quando avistamos um vulto alto de mulher, sozinha, vindo em nossa direção. Não há mais ninguém andando por aquela hora da manhã. Mais um pouco e reconhecemos a figura que se aproxima: Glenda Jackson!
O nosso silêncio fica ainda mais tenso. Cruzamos com Glenda, abrimos caminho, Buñuel de um lado, eu do outro, ela pelo meio, sem nenhum sinal de reconhecimento da sua parte. O silêncio continua por mais uma boa distância até que Buñuel não se contém, me segura forte pelo braço e pára para soltar a sua máxima lapidar:
"Que és fea, és... Pero me habla al carajo..."
Não tenho muita coragem de rir antes dele, mas é uma definição de amor que nunca mais sairá da minha cabeça. Nem seria possível descrevê-la no artigo que mandei depois para o 'Diário de São Paulo' (publicado em 6.6.71).
Estamos de volta ao seu hotel e nos despedimos. Peço-lhe que pose para algumas fotos. Ele concorda com aquela cara nervosa que assusta sempre. Agora é realmente comigo. Inocente, não percebo que a cada tentativa minha de enquadrar seu rosto de frente, ele reage virando a cabeça um pouco mais para a esquerda. Buñuel é um vaidoso, agora percebo pelo visor da câmera. Como uma criança flagrada em sua fraqueza maior, Buñuel luta surdamente com a minha câmera para não se deixar fotografar justamente com o seu auxiliar auditivo grudado à orelha esquerda. Ele vence. As fotos que tiro dele não mostram a orelha esquerda. Passo a reparar desde então em outras fotos suas. Sempre sem a orelha esquerda.
