Redação: Thiago Stivaletti, de Berlim, para o Jornal da Mostra
Edição: Renata de Almeida
Dois dos últimos filmes da Competição entraram pesado pela briga no Festival de Berlim e podem levar algum Urso no anúncio deste sábado 18 de fevereiro. Ambos tratam de questões políticas pouco tratadas pela mídia internacional.
Extermínio cigano
A partir dos olhos de uma menina, Just the Wind aborda um episódio verídico ocorrido na Hungria – o extermínio de oito ciganos romenos que viviam no país. O diretor Bence Fliegauf já teve um longa anterior, Traficante, exibido na 28ª Mostra.
A menina estuda, seu irmão mais novo vive fora da escola com outros ciganos desempregados e a mãe é faxineira num hospital local. O pai partiu para o Canadá e promete buscar a família em breve, mas a menina vive tensa porque uma outra família de romenos foi exterminada há alguns dias. Com a aspereza típica do cinema húngaro, Fliegauf constrói um filme escuro e opressivo, que revela com poucos diálogos a opressão e discriminação vivida pelos ciganos em toda a Europa.
Feiticeira da guerra
Já no canadense Rebelle / War Witch, de Kim Nguyen, Komona é uma menina que vê a família exterminada e é obrigada a alistar-se na guerra ao lado da milícia antigovernista Grande Tigre Real – a produção foi filmada no Congo, mas o país nunca é citado no filme.
Komona vê fantasmas dos mortos, decide escapar da milícia com o namorado, que ela chama de Mágico e mais tarde engravida aos 14 anos do homem que a estuprou. Durante todo o tempo, ela mantém uma obsessão: voltar ao local onde seus pais morreram para enterrá-los. O filme mescla uma dura realidade com um certo misticismo e a poesia da trilha sonora, combinando crítica social e beleza das imagens.
Vanguarda portuguesa
Também forte candidato, o português Tabu (foto), de Miguel Gomes, mistura narrativa, fábula e imagens de uma África nostálgica para contar em preto-e-branco a história de um amor perdido. Gomes é diretor de Aquele querido mês de agosto, vencedor do Prêmio da Crítica na 32ª Mostra. Tabu é coproduzido pela Gullane, uma das responsáveis pelo projeto Mundo Invisível, em parceria com a Mostra, e de Terra Vermelha, filme de abertura da 32ª Mostra.
Aurora é uma senhora que vive em Lisboa cercada de mistérios e falando coisas sem nexo. Ela é protegida por sua criada Santa, com quem ela mantém uma relação de certa hostilidade e racismo. Uma vizinha, Pilar, interessa-se por seu passado e logo descobre Ventura, um homem com quem ela teve uma ligação no passado. Dividido em duas metades, Tabu rende uma homenagem ao cinema de Murnau, prestando também tributo ao cinema de Manoel de Oliveira e à literatura de Eça de Queirós. Um grande e ousado filme.
Estreia colombiana
Produtor há 15 anos, o colombiano Jhonny Hendrix Hinestroza fez sua estreia na direção com Chocó, belo filme que passou na paralela Panorama. Com uma belíssima fotografia que enquadra o colorido de um vilarejo distante na Colômbia, ele conta a história da personagem-título, uma moça negra casada e com dois filhos que vive numa pequena cabana.
O marido chega bêbado toda noite e a obriga a fazer sexo. O aniversário da filha de aproxima e Chocó quer comprar um bolo de aniversário no mercadinho da esquina, mas o comerciante branco e racista põe o preço lá em cima e sugere dar-lhe o bolo em troca de uma noite de sexo. O mérito de Hinestroza é conseguir um equilíbrio entre essa vida pobre, amarga e cheia de dificuldades com momentos de alegria e leveza da rotina da protagonista. Um promissor talento latino-americano a se reter.
