Redação: Thiago Stivaletti, para o Jornal da Mostra
Edição: Renata de Almeida
O austríaco Michael Haneke é dono de uma carreira singular. Em seus primeiros filmes, como “O Sétimo Continente” (13ª Mostra), “O Vídeo de Benny” (16ª Mostra) e “Funny Games – Violência Gratuita” (21ª Mostra), a violência era tão forte que logo lhe valeu o título de diretor sádico, duro, que gosta de mexer com os nervos do espectador.
Em 2009, Haneke venceu a Palma de Ouro em Cannes com “A Fita Branca” (33ª Mostra), drama sensível, humanista e sutilmente construído sobre as origens do mal na Alemanha pré-nazista. À época, em sua decisão para a Palma, a presidente do júri, a atriz francesa Isabelle Huppert, justificou: “Haneke é mestre em construir um humanismo tortuoso, que às vezes não é fácil de depreender, mas que permeia muitos dos seus filmes”.
Esse humanismo fica mais evidente com Amour, que lhe valeu sua segunda Palma de Ouro em Cannes. Georges e Anne (Jean-Louis Trintingnant e Emmanuelle Riva), um casal de idosos, têm sua vida perturbada quando ela sofre um derrame e fica paralisada, e ele precisa cuidar dela. A degeneração de Anne é mostrada em cenas que causam impacto e sofrimento. Submetido a esse trágico ocorrido, Georges precisa dar provas de seu amor em gestos cotidianos. A violência está presente, como sempre em Haneke, mas deixa espaço para esse humanismo latente de que falou Huppert.
Ao dar sua Palma de Ouro, o presidente do júri de 2012, Nani Moretti, fez questão de destacar a inestimável contribuição da dupla de atores protagonistas em “Amour”.
LUZ E TREVAS
O mexicano Carlos Reygadas misturou beleza, sofrimento e certa violência em filmes enigmáticos como “Japón” (26ª Mostra) e “Batalla en el Cielo” (29ª Mostra). Em seu novo filme, Post Tenebras Lux, o mistério é aprofundado na história de Juan, um homem que se muda com a esposa e os dois filhos da cidade grande para o campo.
A vida rural é mostrada em seus momentos belos e bucólicos – como na impressionante sequência inicial da menina num vasto campo em meio a um rebanho de vacas e uma tempestade que se aproxima – e em toda a sua rudeza – os pequenos proprietários que desmatam ilegalmente, os caseiros que planejam um assalto à casa do patrão. Soma-se a isso sequências que podem vir do sonho ou da imaginação, como uma aparição diabólica ou a cena em que o casal vai a uma sauna de sexo livre. Apesar da recepção crítica controversa, Reygadas saiu do Festival de Cannes com o prêmio de melhor diretor – e prometeu continuar a fazer obras fortes e enigmáticas.
