Edição: Renata de Almeida
Em tempos de crise na Europa, com corte de custos e desemprego alto, o britânico Ken Loach – de Ventos da Liberdade (30ª Mostra) e À Procura de Eric (filme de abertura da 33ª Mostra) – voltou a trazer um alento de esperança. O cineasta de esquerda, que desde o fim dos anos 60 faz seus fortes filmes de cunho social, voltou a competição de Cannes com The Angel’s Share, uma deliciosa comédia situada no interessante universo do uísque escocês.
Robbie, um adolescente desempregado e sem perspectivas da periferia de Glasgow, na Escócia, acabou de engravidar a namorada e tem que fugir de uma antiga rixa com uma gangue local. Um dia, ele começa a se interessar pelo mundo do uísque, passa a aprender tudo sobre a bebida e planeja um pequeno golpe para roubar de uma grande destilaria aquele que é conhecido como o melhor uísque do mundo. Uma comédia leve e espirituosa, como os melhores uísques. O filme saiu de Cannes com o Prêmio do Júri.
RESNAIS, A ARTE E A MEMÓRIA
Aos 90 anos, o mestre francês Alain Resnais – de Hiroshima Mon Amour (13ª Mostra) e Ervas Daninhas (33ª Mostra) dá sinais de completa vitalidade. O novo Vous n’avez encore rien vu (“Você ainda não viu nada”, em tradução livre) retoma os temas mais caros ao grande diretor, contemporâneo da Nouvelle Vague: a morte e a memória.
Um dramaturgo, Antoine d’Anthac, acaba de morrer. Sua morte é comunicada por um agente a vários atores com quem Antoine trabalhou – atores que, no filme, são chamados pelo próprio nome: Pierre Arditi, Sabine Azéma (mulher de Resnais), Mathieu Amalric, Anne Consigny e muitos outros.
A pedido de Anthac, esses atores são reunidos na mansão do recém-falecido para assistir numa tela à ultima encenação de Anthac para “Orfeu e Eurídice”, do dramaturgo francês Jean Anouilh. Aos poucos, os atores se lembram dos personagens que viveram em encenações anteriores da peça, reapropriam-se daqueles personagens e começam um fascinante jogo.
Em Resnais, o novo sempre ilumina o velho, a morte é um dado que apenas ilumina a vida e a Arte com A maiúsculo engrandece os atores-espectadores dentro do filme e os espectadores fora dela. Uma grande lição de cinema.
