27 / 8 / 2002
missing_big
O PAPEL DA CRÍTICA Caro Leon, que 'doces' palavras suas acerca do papel da crítica [Jornal da Mostra nº 128]. Quanto me incomoda termos tão poucos críticos construtivos na imprensa atual. Profissionais como Inácio Araújo, que honram nosso quadro de profissionais cinematográficos, ficam sufocados entre os 'oportunistas irados' como Conti e outros 'fofoqueiros da tela' que se auto-anunciam como críticos. Isto que te mando não é só um desabafo e um ato de solidariedade, mas quero informá-lo que estou copiando seu texto para trabalhá-lo num projeto com 2100 professores da rede estadual de ensino que tem como objetivo estimulá-los a usar filmes e vídeos em suas aulas. Esse trabalho tem como conseqüência adicional a formação de platéias, sobretudo e principalmente para o cinema brasileiro, além de ser um espaço de orientação para a emergência de vocações para o audiovisual. Seu texto vem a calhar para tudo que temos trabalhado em nosso projeto Educom.TV, pois o professor, de certa forma, atua como um crítico 'do bem' quando usa filmes e vídeos em suas aulas. Marília Franco DISCORDO RADICALMENTE Discordo radicalmente de quem acha que crítico não merece avaliação. Não é a primeira vez que Conti cria 'problemas' ao enveredar por uma praia (o Cinema) que definitivamente, não é a dele. Foi assim com 'Barra 68', documentário de extremo bom gosto produzido pelo veterano cineasta Vladimir Carvalho, que, ao ter seu filme vilipendiado pelos frágeis argumentos 'contra' de Conti, produziu uma resposta à altura de sua inteligência e sensibilidade. Parabéns mais uma vez ao ‘Jornal da Mostra’, pelo dinamismo com que toca numa questão polêmica como a 'crítica dos críticos'. Nathacha Regazzini Bianchi Reis/ Rio de Janeiro A FUNÇÃO DE UM CRÍTICO NÃO É ARRASAR Gostaria de dar a minha modesta opinião em relação à discussão que surgiu em torno do filme 'O Príncipe' [foto]. Infelizmente ainda não vi este último trabalho do Ugo Giorgetti e confesso que também não li o que foi escrito por M. Conti. Defendo a idéia que a função de um crítico não é arrasar, em uma folha de papel, trabalho que levou meses ou até anos para ser concluído. Um dia li um texto de um cineasta francês, infelizmente não recordo o nome, que abolia a palavra 'crítica' e defendia a 'análise', pois ao seu modo de ver um crítico é aquele que traz a simples sentença de que um filme é bom ou ruim. Em uma análise o estudo da obra é mais completo e detalhado. Um filme nunca é simplesmente aquilo que estamos vendo na tela, é preciso ter em mente todo o (fantástico) trabalho de captar e administrar os escassos recursos destinados para o Cinema, fora o trabalho com atores, cenários, figurinos... Cabe a quem faz o estudo de uma obra e tem o privilégio de ver o seu trabalho divulgado em jornais, revistas, rádios entre outros, a função de analisar o filme de modo a enriquecer o debate em torno da obra e auxiliar o desenvolvimento profissional de quem faz Cinema e não de provocar uma fuga da bilheteria. Anderson Cássio Não vi o filme O PRÍNCIPE de Ugo Giorgetti e não posso emitir qualquer julgamento ou crítica, mas defendo o artigo de Mário Sérgio Conti por princípio. Esta discussão paira sempre sobre a consideração de 'crítica construtiva' e 'crítica destrutiva' que rechaço. Crítica não pode ser construtiva ou destrutiva, crítica tem que ser crítica. Crítica não pode ser didática, o que seria uma pretensão descabida do crítico educar o autor de obra ou querer conduzi-lo para uma realização mais acertada e coerente, nem um documento oficial sobre a opinião do público; crítica é um instrumento de verificação de obras atuais ou atualização de obras antigas e é sempre posicional e particular, o que se conclui que crítica pode ser considerada 'boa' ou 'ruim' pelo leitor comparando as impressões e a abordagem dos tópicos desenvolvidos. Tal iniciativa de desconsiderar a crítica do outro só pode ser vista pelo famoso protecionismo idealista do cinema brasileiro, que não deveria ser visto jamais como capaz de fazer filmes ruins pela importância do fator cultural de divulgação a que ele pretende, que além de ridículo é insensato: o fortalecimento de nossa cultura passa pela aceitação de nossos defeitos culturais e artísticos, como fazer um filme que - de repente - seja ruim; e sequer poderia oficializar cada autor de obra como um cânone cultural e artístico, o que só o tempo define e mesmo assim sujeito a controvérsias: cânone nesses moldes é o cinema por si só, um argumento impessoal. Em outro artigo deste jornal sobre Gramado, enviei-o a uma das organizadoras da Mostra de Super8 no Festival e ela detestou. Mantenho o princípio de defender quem quer que seja do seu direito de criticar - dar as suas impressões - e acho que só existe o argumento destrutivo quando o desprezo pela opinião alheia e os interesses pessoais falam mais alto, a ponto de querer anular a impressão do outro. Em suma, não goste da crítica do Mário Conti como a organizadora de Super8 não gostou da sua, mas a crítica vai existir e é sempre válida, boa ou ruim. Arlindo de Almeida Jr.