21 / 5 / 2012
no

Redação: Thiago Stivaletti, para o Jornal da Mostra
Edição: Renata de Almeida

 

Em seus três primeiros dias, o Festival de Cannes já exibiu alguns dos filmes que devem marcar os cinéfilos nos próximos meses. Uma das melhores surpresas veio da América Latina na paralela Quinzena dos Realidores. No, do chileno Pablo Larraín (de Tony Manero, 32ª Mostra), revolve as feridas da ditadura chilena ao mostrar o referendo promovido em 1988 para saber se o povo chileno ainda queria Pinochet no poder.

Promovido por pressão da comunidade internacional, o “Não” acabou vencendo o referendo, pondo fim à ditadura de 15 anos (uma das mais violentas do continente) e iniciando o processo de redemocratização do país. Estrelado por Gael García Bernal (de O Passado, 31ª Mostra), No mostra a trajetória do publicitário responsável por montar a campanha do “Não”. Com uma fotografia que imita o efeito das fitas de vídeo dos anos 80, o filme tem um roteiro elaborado que mostra como um momento político foi influenciado pela publicidade que já tomava conta da mídia nos anos 80.

Memórias de guerra

Outro grande momento foi a exibição do documentário Roman Polanski – A Film Memoir, retrato abrangente de uma das personalidades mais polêmicas do cinema. Polanski dá seu depoimento ao diretor e amigo pessoal, Laurent Bouzereau. Eles começam falando da inusitada prisão no aeroporto de Zurique em 2009, quando desembarcava para uma homenagem no festival local. Logo, passam a lembrar da infância de Polanski na Polônia no auge do Holocausto – sua mãe foi morta nos campos de concentração quando estava grávida de mais um filho.

O filme ainda relembra dois grandes momentos polêmicos da vida do cineasta – o assassinato de sua mulher, a atriz Sharon Tate, em Los Angeles nos anos 70 e o processo por corrupção de menor que enfrentou em Hollywood – motivo de sua prisão tardia em 2009. Tudo costurado por cenas dos filmes do diretor que foram criadas diretamente a partir de suas memórias.

Depois da Primavera Árabe

Em competição, o filme egípcio Baad el Mawkeaa (Depois da batalha) é uma das primeiras ficções a dar conta da Primavera Árabe e das revoltas populares que tomaram conta da Praça Tahrir, no Egito, e terminaram por derrubar o ditador Hosni Mubarak.

Uma moça de classe média investiga a verdadeira motivação dos “cavaleiros da praça Tahrir”, que um dia invadiram a praça reprimindo violentamente os manifestantes. Descobre que as forças de Mubarak prometeram dinheiro e melhorias se eles agissem com violência, mas depois não cumpriu o prometido. Uma ficção que tenta dar conta dos últimos ventos que varreram o mundo árabe nos últimos dois anos.

Ferrugem e osso

O francês Jacques Audiard, de Um Herói muito Discreto (21ª Mostra) e O Profeta, Grande Prêmio do Júri em 2009, voltou com De rouille et os (De ferrugem e osso), drama visceral sobre Stéphanie, uma mulher que fica paraplégica num acidente e precisa reencontrar a força para viver. Marion Cotillard, de “Piaf”, surgiu como uma das fortes candidatas ao prêmio de atriz. O diretor imprime força e emoção a uma história de superação, sempre amparado numa bela fotografia, com um grande papel também para o ator-revelação belga Mattias Schonaerts (de Bullhead, 35ª Mostra), o homem que passa a cuidar de Stéphanie.